Chegara em casa radiante. Que dia!! Nunca, em tanto tempo, estivera tão feliz. Os olhares de inveja de seus colegas de trabalho valiam todos os sacrifícios que fizera. O único que batera, ou melhor, superará a meta de vendas da pequena concessionária onde trabalhava. Nunca na história da empresa um funcionário venderá tanto. O patrão era só sorriso. Recebera uma gorda comissão. Os “amigos”, insistentes, o arrastaram para um barzinho no Rio Vermelho. Muito agradável. Mas o que queria era estar só e curtir aquele momento. Sempre fora assim. Só. Ao chegar em casa, tomou um banho e deitou-se na frente da sua televisão. Iria trocá-la. Passava uma de suas séries prediletas. Mas algo tirava sua atenção. Mas o que? Não sabia ao certo. E, de repente, a sensação de felicidade foi dando espaço a uma saudade insabida. Mas de quem? De quê? Não! Não ousaria pensar! Estava feliz! Não iria pensar... Mas o sentir persistia, o coração disparava. Até que vencido aceitou o nome: Marcelo. Precisava dividir com ele. Não, não ligaria. Tinha que ser só. Há muito havia decidido que seria só. Não mais ligaria, nem o procuraria. Mas o coração sempre teve a última palavra em sua vida e mais uma vez ele vencia o jogo. Estava cedendo.
Não posso!
Mas pegou o celular e lembrou-se que há muito apagara o seu número da agenda. Mas não precisava. Lembrava-se, perfeitamente, do número. Digitou-o, mas hesitou uma última vez. O que diria? Além do mais já era tarde. Com certeza ele já dormia. Ou será que mudara seus hábitos? Que se dane! Apertou o “send”. O telefone chamou uma vez, duas, três, quatro, ..., caixa. Estaria dormindo ou não queria falar com ele? Não sabia. Não queria saber.
Seu coração doía.
Tentou ir dormir e esquecer-se de tudo aquilo, amanhã faria hora extra, trabalharia até a exaustão. Virou de um lado pra o outro. Nada. Não conseguia dormir. Apelou para o seu bom e velho Valium. Seu amigo de tantas horas.
Apagou.
- Mas o que é isso? Parece meu telefone. Aí, minha cabeça!! Estou zonzo. Lembrou-se do remédio. Pegou o telefone. Aquele número... Conhecia aquele número. Não podia ser. Olhou para o relógio. Eram 4 h da madrugada. Hesitou, mas atendeu. Disse um alô vacilante.
- Alô;
- Emmanuel? Acordei-te?
- Na verdade acordou, mas não tem problema. Eu te liguei ontem...
- Eu vi, mas não sabia como atender. Fiquei surpreso, feliz, chateado por você ter sumido durante todos estes meses... Senti muito sua falta.
- Porque não me ligou?
- Como assim? Eu te liguei por dias! Como você não atendia e não retornava...
- É verdade. Eu não... Eu não tinha forças pra falar contigo.
- Eu só queria te pedir perdão, mas como você não atendia... Achei que fosse tarde demais...
- Talvez seja.
- Certo. Mas, afinal, porque você me ligou?
- Estava tão feliz ontem, mas incompleto. Aquela sensação tinha que ser dividia contigo, mas você não estava mais aqui.
- Sei bem o que é isso... Quantas vezes fiquei triste por não poder contar pra você minhas conquistas. Quantas vezes te odiei por você ter sumido, por você me evitar. Quantas vezes meus momentos felizes se converteram em rios de lágrimas e dor. Quanto arrependimento uma pessoa pode sentir?
- Você se arrependeu?
- Cada dia, cada segundo que fiquei longe de você me doeu... Você sabe, você me conhece... Porque insiste em fazer tudo errado quando faço minhas loucuras?
- Porque suas loucuras me machucam, suas “certezas” me ferem... E eu não agüentava mais tentar falar, te trazer a razão e você insistir nos seus erros... Você sempre se esquece quem eu sou... Você não agüenta a pressão da vida e desconta em mim, sempre em mim...
- Perdão. Desculpa-me.
-Não sei se posso... Sei que não devo...
Do outro lado da linha, Emmanuel, ouvia aquele choro copioso. Cada lágrima o atingia. Como queria afagá-lo. Abraça-lo... Então, num acesso de insensatez, disse:
- Vamos almoçar amanhã?
Demorou, demorou como se Marcelo tentasse entender o que era aquilo, o que aquilo significava, mas parecia não querer perder a oportunidade. Respondeu:
- Vamos!
Marcaram em lugar bem significativo para ambos. Shopping Barra. Foi lá que haviam se conhecido. Emmanuel chegara lá meia hora antes do combinado. Sentou-se e começou a lembrar de todas as vezes que haviam estado ali. Tantas vezes, tantos momentos felizes. Tantas coisas para lembrar e poucas pra esquecer. Mas com Marcelo as coisas não funcionavam nesta dinâmica. Lá o que existia era muita coisa pra esquecer e pouco pra lembrar. Isso sempre o machucava.
Marcelo chegará com 10 minutos de atraso, normal. Pontualidade nunca fora o seu forte. Abatido, magro, cabelo por cortar. O que havia acontecido? Onde estava aquele Marcelo vaidoso? Passado o susto se cumprimentaram. Marcelo evitava a todo custo sustentar o olhar por muito tempo, parecia ter medo. Medo de não suportar e se atirar nos braços de Emmanuel ali mesmo no Barra. Emmanuel suspirou ao perceber isso.
Ainda se gostavam.
Não sabia como avaliar aquela descoberta. Não sabia se classificava como positiva ou negativa.
Mas o futuro guardava uma resposta.
Juntos tiveram momentos bons, ótimos e terríveis. Nada demais em uma relação.
Emmanuel via os problemas a serem resolvidos, mas se omitia até que o intempestivo Marcelo colocou, mais uma vez, fim na historia sem prévio aviso. A principio, Emmanuel ficara sem chão, mas com o passar dos dias percebeu agora era um sentimento fraco, remendado, que não conseguia caminhar com as próprias pernas.
Se não era mais um amante...
Seria um amigo?
Lembrava-se de um conceito: o indecidível...
O futuro parece guardar a resposta...